A amizade que gerou sagas

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Numa noite de setembro de 1931, J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis saíram para uma caminhada. Andaram madrugada adentro e, ao alvorecer, Lewis era um homem à beira da conversão religiosa. Durante aquelas horas, Tolkien, um católico devoto, ganhou a adesão do amigo com um argumento curioso: se ele estava sempre pronto a abraçar os mitos nórdicos – paixão que os dois professores da Universidade de Oxford dividiam –, não havia razão para que rejeitasse a cristandade, ao menos em sua dimensão mítica. Trata-se de um caso curioso de conversão pelo caminho do profano, mas é apenas uma das muitas peculiaridades que marcariam a relação de Lewis com a fé. Criado numa família anglicana de Belfast, na Irlanda do Norte, o escritor e estudioso de literatura Lewis tinha péssimas lembranças da infância e da juventude. Elas abarcavam desde a perda da mãe, aos 9 anos, até a teimosia do pai e os internatos onde era surrado e aterrorizado pelos colegas. Não é de admirar que Lewis tivesse descartado, junto com essas memórias, todo e qualquer sentimento religioso. Mas também não é de estranhar que, com um passado desses, tivesse algum vazio espiritual a preencher – o que Tolkien detectou.
Lewis passou da água para o vinho. Nunca se filiou ao catolicismo (o que muito decepcionou Tolkien) ou a nenhuma outra denominação, mas tornou-se um cristão militante, conhecido sobretudo pelo popularíssimo programa de rádio em que destrinchava questões de fé com simplicidade (e, segundo muitos, com simplismo). Sua correspondência acerca da religião também é farta, mas trai um dado inesperado: boa parte dela é ocupada com receitas, por assim dizer, de como manter a fé. Num artigo excelente publicado há algumas semanas na revista The New Yorker, o crítico Adam Gopnik defende que, tendo se convertido, Lewis nunca parou de se perguntar: por que a essa fé e não a outra? Nesse sentido, diz ele, As Crônicas de Nárnia podem ser vistas de maneira bem diversa da tradicional – não como uma fábula destinada a doutrinar, mas como um lugar em que a magia, embora misturada ao dogma e à doutrina, suplanta a ambos. Gopnik argumenta que mesmo o grande símbolo cristão de Nárnia – o leão que morre para redimir os pecados de um menino, e então ressuscita – é uma representação um bocado esquisita de Jesus Cristo. Em vez de, digamos, um humilde burrico que se revelaria o senhor da Criação, Lewis escolheu um predador que está no topo da cadeia alimentar e carrega um odor inconfundível de paganismo.
Nárnia, ironicamente, ocasionou o esfriamento da amizade que a originara. Tolkien, que detestava alegorias, odiou também os manuscritos de Lewis – uma "miscelânea de imagens", foi como os classificou. Ao contrário do amigo, Tolkien era um homem seguro de sua fé, e nunca achou que sua literatura deveria ser instrumento de proselitismo. Tem-se nos dois amigos, então, uma contradição intrigante, que ultrapassa em muito o domínio da literatura. Aquele de fé inabalável nunca quis pregar – enquanto o outro, atormentado por dúvidas, fez de doutrinar a sua missão.
Fonte:Abril.com


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